Atualmente, alguns habitantes de Valença ainda consideram o Sagrado Coração de Jesus como o padroeiro da cidade. Essa percepção remonta a 1801, quando foi construída a Igreja Matriz dedicada a esse santo, com a intenção de que ele assumisse o título de padroeiro da Vila de Nova Valença, que havia sido estabelecida em 1799. No entanto, surge a questão: por que instituir um novo padroeiro em uma localidade que já cultuava Nossa Senhora do Amparo há mais de um século? Uma possível explicação está relacionada a um projeto de reforma que a Igreja Católica implementou no século XIX, visando combater as práticas de devoção popular e promover uma espiritualidade mais centrada nos sacramentos.
É interessante notar que o conceito de padroeiro, ou "arago", tradicionalmente está vinculado a um santo ou a algum título da Virgem Maria, que exerce a função de intercessora junto a Deus. Portanto, a designação do Sagrado Coração de Jesus como padroeiro parece incoerente, uma vez que, de acordo com a doutrina da Santíssima Trindade, Cristo é reconhecido como Deus em si mesmo.
Ao longo dos anos, enquanto a Festa do Sagrado Coração de Jesus era celebrada de acordo com a liturgia e atraía as elites da cidade—refletindo a localização da Igreja Matriz no centro do poder econômico de Valença—, a Festa de Nossa Senhora do Amparo continuou a ser uma manifestação de fé entre as classes subalternas da localidade. Essa devoção popular foi fortemente influenciada pelos modos de festejar das culturas indígenas e afro-brasileiras.
Com o surto de industrialização em Valença, iniciado em 1840 com a instalação de duas fábricas têxteis, uma delas nomeada Nossa Senhora do Amparo — atualmente conhecida como Companhia Valença Industrial (CVI) — a proclamação de Nossa Senhora do Amparo como padroeira dos operários contribuiu significativamente para a popularidade da santa na cidade. Em meio às precárias condições de trabalho da época, Nossa Senhora do Amparo tornou-se um verdadeiro refúgio para os trabalhadores, aumentando a quantidade de milagres atribuídos a ela ao longo dos anos.
Provavelmente, esse contexto foi crucial para o crescimento da Festa do Amparo, que se tornou a maior festividade da cidade, refletindo a popularidade da santa. A força das práticas das classes populares restabeleceu a Nossa Senhora do Amparo como Padroeira de Valença — um título que, de fato, nunca deixou de pertencer a ela. A confirmação da importância de Nossa Senhora do Amparo para a cidade se evidencia no fato de que o dia 8 de novembro, dedicado a ela, é feriado municipal. Em contraste, o Sagrado Coração de Jesus não possui mais um feriado próprio, e sua festividade foi transferida ao longo dos anos do mês de junho para o terceiro domingo de julho.
É possível afirmar que, desde a segunda metade do século XX, a Festa do Amparo é uma manifestação de emoção. Essa emoção já atraiu, e ainda atrai, embora em números menores em comparação àquela época, centenas de turistas para a festividade. Desde a década de 1970, a Festa do Amparo possui o formato que conhecemos atualmente: a Lavagem da Igreja, realizada pelos adeptos das religiões de matrizes africanas no último domingo de outubro, as novenas entre os dias 30 de outubro e 7 de novembro, e as celebrações do grande dia, 8 de novembro. Este dia é marcado pela alvorada festiva ao amanhecer, o ofício de Nossa Senhora às 6 horas, a tradicional Missa dos Operários às 7 horas, a Missa Solene às 10 horas e, por fim, a tão aguardada procissão às 15 horas. Considero este momento o mais belo da festa, ousando chamá-lo de “Círio do Baixo Sul da Bahia”.
Ao longo dos anos, a colina sagrada, mais querida pelos valencianos, tornou-se um espaço de memória representado pela Festa do Amparo, consolidando-se como o maior núcleo identitário da cidade. Nela se entrelaçam as recordações das barracas, dos parques de diversões, do Candomblé Elétrico, do sistema de radiofusão conhecido como “A Voz do Amparo”, dos sambas de roda, das batucadas, das serestas e das levadas. A imagem da igreja iluminada pode ser contemplada a partir de diversos bairros da cidade ou pela ladeira adornada com bandeirolas e gambiarras de lâmpadas incandescentes, que cobrem toda a rua.
As memórias evocam os sabores da maçã-do-amor, da pipoca, do algodão-doce, da cana-de-rolê, e o aroma inconfundível de batata frita e pururuca, além dos balões suspensos e das bolas de vinil, que imortalizam momentos em fotografias tiradas por meio de binóculos. Recordam também a tão esperada procissão, com bandeirolas enfeitadas nas ruas, confetes e toalhas brancas nas sacadas, acompanhadas de aplausos, lágrimas e olhares que traduzem o agradecimento por mais uma Festa do Amparo vivida.
São inúmeras memórias que não se restringem às limitações deste texto. No entanto, uma certeza permanece no coração de cada valenciano, independentemente de onde esteja: a Festa do Amparo é a Festa do Povo Valenciano. Essa festividade é uma marca identitária que nunca poderá se apagar. Cada festa é única e se manifesta de acordo com seu contexto histórico. A Festa do Amparo é um patrimônio vivo; sua emoção pode adquirir novas nuances, mas jamais perderá sua essência. É dessa emoção que se origina o cerne da identidade do povo de Valença.
A Festa do Amparo deve ser respeitada em todas as suas dimensões, sejam elas religiosas ou culturais. Contudo, somente quando ambas as dimensões se entrelaçam é que a Festa do Amparo realmente ganha sentido, reafirmando que, para os valencianos, ela representa amor, fé, festa e devoção.




